Normando apresenta “Natureza Morta” no Rio Fashion Week e transforma o tempo em matéria viva

Para o Rio Fashion Week, a Normando apresenta “Natureza Morta”, coleção inédita com 35 looks femininos e masculinos desenvolvidos a partir de técnicas manuais complexas e do uso de materiais como lã, seda, algodão pima, liocel e látex, em um desfile com styling de Guilherme Alef, direção de Ed Benini e casting com nomes como Julia Barucci, Marcelle Bittar e Carol Ribeiro

A natureza sempre encontra seu lugar de volta.

Toda natureza morta é, no fundo, uma natureza que aguarda. Os frutos pintados e postos sobre a mesa não estão parados, estão em processo. O que esse gênero artístico traz e o que a pintura capturou não foi um instante fixo, foi o momento exato em que a matéria orgânica lembra ao observador que ela não pertence à tela, mas que ela pertence ao ciclo. E no contexto amazônico, essa frase é quase um fato geológico. A floresta já esteve onde estão as cidades. Ela se lembra e com a paciência de quem tem raízes, ela vai voltando pela fresta do muro, pelo telhado abandonado, pela semente que o vento deixou no canto da calçada, centímetro a centímetro, sem pressa ela retoma seu espaço, sem negociação.

Normando Rio Fashion Week 2026 Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Nessa coleção, objetos e elementos carregados de símbolos e significados tomam o palco, como o matapi, armadilha de pesca própria para pegar camarão nos rios amazônicos, trançada em palha pelos povos indígenas da Amazônia. É talvez o objeto mais rigorosamente geométrico já produzido manualmente neste continente. Sua espiral não decorou nenhum salão. Ela capturou o sustento de gerações. Mas, ao observá-la com atenção, revela-se como um módulo que o Art Déco nativista brasileiro passou décadas tentando reinventar.

As folhas do açaizeiro, aqui emaranhadas sobre blazers, vestidos e saias, são um tratado sobre o ritmo. Cada pina disposta ao longo do ráquis repete e varia, repete e varia, como uma música que se sustenta na repetição. O tambatajá e o tajá aparecem na camisaria com sua folha larga e nervurada, que cresce às margens dos rios e que os povos indígenas utilizam para embrulhar, cobrir e transportar. São ao mesmo tempo plano e volume, superfície e abrigo, carregados de misticismo.

A cuia indígena, moldada à geometria pela mão que a escava, reaparece nesta coleção como recipiente, mas também como uma questão fundamental da natureza morta. O que o objeto contém quando está vazio? O que significa dispor uma cuia sobre uma superfície e observá-la até que deixe de ser utensílio e se torne forma pura?

O látex extraído das seringueiras amazônicas, que já construiu fortunas e destruiu povos, surge nesta coleção como matéria que carrega memória. Não é um elemento neutro. A floresta sangrou e, coagulado, transforma-se aqui em indumentária.

Ferreira Gullar colocou bananas podres dentro de um poema e o poema não apodreceu. Ao contrário, ganhou vida. As bananas evocadas em sua poesia não são um gesto de crueldade, mas de honestidade com o tempo. A natureza morta nunca teve a função de preservar, mas de testemunhar. O apodrecimento não é falha, é tema. A banana que apodrece na tela é a mesma que apodrece na cesta. Aqui, ela surge em estampa e também materializada em uma das peças do desfile, estabelecendo um diálogo entre representação, matéria e processo biológico.

O bronze oxidado, frequentemente presente em obras e monumentos de caráter Art Déco no Rio de Janeiro, não aparece aqui pela nobreza do material, mas pela ação do tempo. A pátina, o verdigris, cobre a superfície como memória viva, resultado da umidade que transforma a escultura e revela a retomada da natureza sobre aquilo que parecia fixo. Poucos gestos são tão eloquentes quanto uma estátua sendo lentamente consumida pelo ar que a envolve. O bronze oxidado encerra o ciclo como imagem de uma floresta que não aceita ser apenas decoração. Ela reage, ela retoma. É a natureza morta que respira, recusando o próprio nome.

Este desfile apresenta sobre a passarela o matapi, o tambatajá e o tajá, a cuia, o látex amazônico que ora aparece em sua forma mais simples, ora simula as folhas do açaizeiro, o bronze oxidado que a floresta reconquista e a banana preta evocada por Gullar como lembretes de que beleza e decomposição são faces do mesmo processo, vistas por ângulos diferentes. A natureza não negocia o tempo. Não se trata de um inventário, mas de uma mesa posta.

Sobre NORMANDO

Normando é uma marca brasileira com origem na Amazônia, que produz coleções prêt-à-porter, acessórios e peças sob medida, desenhadas pelo estilista Marco Normando, diretor criativo da marca.

Graduado em Moda pela Universidade da Amazônia e com dez anos de experiência no mercado, Marco Normando trabalhou no estilo de grandes nomes da moda nacional antes de fundar a marca, onde aprofundou seu domínio em técnicas de alfaiataria e acabamentos.

Ao seu lado, atua o artista visual e publicitário Emídio Contente, também formado pela Universidade da Amazônia e sócio da marca, responsável pelo trabalho de pesquisa que atravessa desde a concepção das coleções até a forma como são apresentadas ao público.

Naturais de Belém do Pará, no coração da Amazônia, Marco Normando e Emídio Contente trazem de suas vivências referências que atravessam as peças e coleções, além do uso de matéria-prima sustentável oriunda da floresta, como o látex amazônico, substituto do couro animal, e a jarina, semente esculpida que ocupa o lugar do marfim.

Em 2022, a Normando foi uma das marcas brasileiras celebradas na primeira edição do Vogue Celebra, promovido pela Vogue Brasil em parceria com a Globo Condé Nast.

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