Novo desfile da estilista explora o brutalismo, apresenta silhuetas inspiradas na paisagem urbana, estreia a alfaiataria masculina e encerra com uma leitura sensível sobre o espaço do corpo na cidade

São Paulo voltou a servir de inspiração para Penha Maia. Após homenagear a capital em seu primeiro desfile da marca homônima, apresentado em 2024, a estilista retorna às passarelas com uma coleção que direciona o olhar para um dos elementos mais marcantes da cidade: sua arquitetura. A apresentação de Brutalismo: Corpo Humano aconteceu no Viaduto Santa Ifigênia, no centro da capital, reforçando a conexão entre a coleção e o cenário urbano.
Natural da Paraíba e morando em São Paulo há mais de duas décadas, Penha construiu sua trajetória à frente do ateliê Pó de Arroz, especializado em vestidos de noiva. Desde 2020, também desenvolve sua marca autoral, reconhecida pelo caráter conceitual das criações, que exploram volumes marcantes e uma estética que aproxima moda, design e arte.



Os 46 looks apresentados reinterpretam elementos presentes na paisagem paulistana por meio de modelagens geométricas que remetem a edifícios e construções. O styling reforça esse conceito ao incorporar acessórios inspirados em equipamentos de proteção utilizados em obras, criando uma narrativa visual sobre construção, transformação e ocupação do espaço urbano.
A cartela de cores segue a mesma proposta. O cinza domina boa parte da coleção em referência ao concreto das grandes cidades, enquanto amarelo e vermelho aparecem em detalhes que lembram a sinalização das ruas. A experimentação também está presente na escolha dos materiais, que vão além dos tecidos convencionais e incluem espuma, arame, isopor, plástico-bolha e até dutos de ar-condicionado.
As formas geométricas, construídas a partir de retângulos, triângulos e círculos, fazem referência ao Balé Triádico da Bauhaus. Apesar da linguagem artística, Penha afirma que praticamente todas as peças podem ser reproduzidas comercialmente, com exceção das criações desenvolvidas por meio de técnicas de upcycling.



Mesmo com o forte apelo conceitual, a coleção também abre espaço para propostas mais versáteis. Vestidos de renda e uma regata de malha estruturada por hastes metálicas demonstram como elementos experimentais podem dialogar com o guarda-roupa do dia a dia. Outro destaque é a estreia da marca na moda masculina, com peças de alfaiataria, entre elas blazers e paletós.
A arquiteta Lina Bo Bardi também integra o repertório criativo da coleção. Algumas produções reinterpretam as formas e as cores do Museu de Arte de São Paulo (MASP), enquanto reproduções de obras que fazem parte do acervo da instituição aparecem aplicadas em peças como um blazer e um slip dress, reforçando o diálogo entre arquitetura, artes plásticas e moda.


Na etapa final do desfile, a coleção ganha um tom mais intimista. Penha Maia revelou que a proposta nasceu da ideia de “um corpo pedindo passagem em meio à verticalização de concreto”, conceito traduzido em peças que evocam delicadeza e acolhimento. Calcinhas com babados, estampas florais inspiradas em papéis de parede, tecidos acolchoados, transparências e sobretudos cortados verticalmente para revelar as camadas inferiores compõem esse momento. A paleta de cores suavizada encerra a apresentação destacando a sensibilidade da estilista e contrapondo a rigidez da arquitetura que inspirou toda a coleção.
