Gigi Hadid abre Vogue World em Milão e reforça por que o feito à mão se tornou um dos maiores ativos do luxo

Para Tamara Lorenzoni, o desfile que reuniu Valentino, Prada, Gucci, Versace e outras grandes maisons mostra que, na era da IA, tempo, técnica e herança podem valer mais do que velocidade

Gigi Hadid desfila na passarela durante o Vogue World: Milano 2026 | Foto: Valentina S. Frugiuele/Getty Images

Gigi Hadid abriu a passarela do Vogue World: Milano, na última terça-feira (22), com uma criação da Valentino que transformou o trabalho artesanal em um dos grandes protagonistas da noite. O vestido de alta-costura, desenvolvido por Alessandro Michele para a coleção Primavera/Verão 2025 da maison, foi confeccionado a partir de colchas venezianas recicladas e levou cerca de 1.680 horas para ser finalizado manualmente. O detalhe chama atenção justamente pelo momento em que a moda vive. Enquanto a inteligência artificial acelera processos criativos, permite gerar imagens em segundos e amplia as possibilidades de produção em escala, o mercado de luxo parece caminhar na direção oposta quando o assunto é aquilo que torna uma peça realmente singular: tempo, técnica, matéria-prima e intervenção humana.

Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas com atuação internacional, fundadora da Lorenzoni & Co. e especialista no mercado de luxo, o caso da Valentino ajuda a entender uma transformação importante na percepção de valor. “Quanto mais a tecnologia torna a produção rápida, acessível e replicável, mais o tempo passa a ser um ativo de luxo. Uma peça que levou centenas ou milhares de horas para ser construída carrega uma dimensão que não está apenas no produto final, mas no conhecimento, na técnica e na história de quem a produziu”, explica Tamara.

O conceito esteve no centro do próprio Vogue World: Milano. Realizado na Galleria Vittorio Emanuele II durante a Milan Fashion Week, o evento foi estruturado em diferentes atos para percorrer a história da moda italiana, partindo do artesanato renascentista, passando pela industrialização e chegando ao encontro entre tecnologia, inovação e criatividade. A escolha de algumas das principais maisons italianas reforçou essa narrativa. Valentino, Prada, Gucci, Versace, Giorgio Armani, Ferragamo, Bottega Veneta, Dolce & Gabbana e Fendi estiveram entre as marcas presentes na construção estética do evento, representando diferentes momentos e interpretações do chamado Made in Italy. Na prática, o desfile apresentou um paradoxo cada vez mais relevante para o mercado: a tecnologia não necessariamente diminui o valor do artesanal. Em determinados contextos, ela pode fazer com que ele se torne ainda mais desejado.

Vogue World: Milano | Reprodução: Internet

“O luxo nunca foi apenas sobre ter acesso a um produto. É sobre ter acesso a algo que carrega códigos, repertório, raridade e significado. Quando falamos de uma técnica transmitida entre gerações, estamos falando de capital cultural. É isso que impede que uma peça seja reduzida apenas a um objeto”, afirma Tamara. A própria trajetória das grandes maisons italianas ajuda a explicar esse fenômeno. Prada construiu parte importante de sua identidade na combinação entre tradição e experimentação; Gucci trabalha constantemente com códigos históricos reinterpretados; Bottega Veneta tem o trabalho artesanal como elemento central de sua identidade; enquanto Dolce & Gabbana e Versace transformaram referências culturais italianas em códigos reconhecidos globalmente.

Imaan Hamman flanqueado por Ida Heiner e Amelia Gray. | Créditos: Valentina S. Frugiuele/Getty Images

No Vogue World, essa herança apareceu também na escolha de peças de arquivo e criações contemporâneas. Vittoria Ceretti, por exemplo, surgiu primeiro com uma criação de alta-costura Valentino de 2018, marcada por bordados, pedrarias, paetês e pérolas, e posteriormente encerrou sua participação com uma criação personalizada da Prada. Para Tamara, é justamente essa capacidade de preservar uma herança sem deixar de reinterpretá-la que diferencia uma marca de luxo de uma marca simplesmente cara. “Uma marca pode produzir algo caro, mas o preço, sozinho, não constrói luxo. O valor está naquilo que existe por trás: a narrativa, a origem, a excelência, a raridade e a capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo. O artesanal reúne muitos desses códigos em uma única peça”, pontua.

O movimento também mostra uma mudança na relação entre tecnologia e exclusividade. A inteligência artificial pode contribuir para criação, personalização, pesquisa de materiais e desenvolvimento de novos processos, mas não elimina a importância do elemento humano. No próprio Vogue World: Milano, o futuro da moda foi apresentado justamente como um encontro entre tecnologia e artesanato, e não como a substituição de um pelo outro. Nesse cenário, o trabalho manual ganha uma nova dimensão. Técnicas de bordado, tecelagem, aplicação, modelagem e acabamento transmitidas por gerações deixam de ser vistas apenas como preservação do passado e passam a funcionar como ferramentas de diferenciação em um mercado cada vez mais automatizado.

A entrada de Gigi Hadid na passarela, vestindo uma peça que exigiu 1.680 horas de trabalho manual, sintetiza esse momento. O vestido da Valentino não chama atenção apenas pela imagem produzida na passarela, mas pela quantidade de conhecimento, tempo e mão de obra invisíveis necessários para que aquela imagem existisse. “Estamos entrando em uma fase em que talvez o verdadeiro luxo seja justamente aquilo que não pode ser acelerado”, resume Tamara. “Em um mundo em que podemos criar quase tudo em poucos segundos, aquilo que exige tempo, domínio técnico e uma história para ser construído passa a ter ainda mais força.”

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