Frizz vira tendência de beleza e ganha espaço nas passarelas da Prada

Desfile da grife italiana transforma fios arrepiados, volumosos e desalinhados em elemento de estilo e acompanha movimento de valorização de uma beleza menos controlada

Prada transforma frizz em tendência | Reprodução: Dvulgação

O frizz, durante muito tempo tratado como algo a ser eliminado dos cabelos, começa a ganhar um novo significado na moda e na beleza. No desfile da Prada, na Semana de Moda de Milão, fios arrepiados, volumosos e propositalmente desalinhados apareceram como parte importante da construção visual, reforçando uma estética que se distancia cada vez mais dos cabelos perfeitamente polidos. Ao transformar fios arrepiados em protagonistas, a Prada reacende uma discussão importante: até onde vai a valorização da beleza real e onde começa a estética proposital do cabelo? O desfile da Prada chamou atenção pelos cabelos desalinhados, volumosos e carregados de frizz. O visual, criado por Miuccia Prada e Raf Simons, questionava os padrões tradicionais de feminilidade e as ideias de beleza, cuidado e elegância.

Para Mari Borges, visagista e terapeuta capilar, a escolha da grife conversa com uma mudança que já pode ser percebida na maneira como as pessoas se relacionam com os próprios cabelos.

“A proposta conversa com uma tendência que observo há algum tempo: a valorização de uma beleza menos controlada. Quando estive na Itália, em 2023, chamou-me atenção a naturalidade com que muitas mulheres usavam cabelos com textura, movimento e frizz. Os fios não pareciam moldados para permanecer imóveis o dia inteiro”, afirma. “Era um cabelo natural, mas ainda tratado”.

Essa percepção ganha força justamente em um momento em que a beleza passa a abrir mais espaço para características que antes eram vistas como imperfeições. O cabelo com movimento, volume, textura e alguns fios arrepiados deixa de ser necessariamente interpretado como algo que precisa ser corrigido e passa a fazer parte da identidade visual. Para Mari, essa diferença ficou evidente na passarela da Prada. “Essa diferença ficou evidente na passarela. O efeito da Prada foi propositalmente exagerado e, em alguns casos, os cabelos pareciam ásperos, estáticos e danificados, não apenas naturais. Naturalidade e falta de cuidado não são a mesma coisa”.

Apesar disso, a especialista destaca que o frizz não deve ser automaticamente associado a problemas nos fios. Ele pode fazer parte da própria característica do cabelo e da sua textura. “O frizz pode surgir por causa da curvatura dos fios, da umidade, da eletricidade estática ou do ressecamento. Quando a fibra perde parte de sua proteção lipídica, camada que ajuda a manter a cutícula protegida, torna-se mais porosa, absorve umidade de forma irregular e fica mais arrepiada. Química, calor, sol e atrito podem intensificar esse processo.” Mas nem todo fio fora do lugar indica dano. “Muitas vezes, trata-se de cabelo novo, ainda curto e sem peso para acompanhar o restante. Fios finos, ondulados ou com curvaturas diferentes também são naturais. Nenhum cabelo é perfeitamente uniforme, embora as redes sociais frequentemente criem essa impressão por meio de iluminação, finalização e retoques”, explica.

A discussão sobre o frizz também acompanha uma transformação na própria ideia de beleza. Durante anos, produtos, ferramentas térmicas e finalizações foram usados para buscar um cabelo completamente alinhado, sem volume e sem fios arrepiados. Agora, a textura natural começa a ser incorporada também às produções consideradas sofisticadas. “Por isso, é positivo que a moda abra espaço para cabelos menos engessados. Isso ajuda a combater a ideia de que qualquer fio arrepiado é um defeito. Ao mesmo tempo, é preciso não confundir a valorização da textura natural com a glamourização de uma fibra danificada”.

A especialista acredita que a passarela funciona como um reflexo e, ao mesmo tempo, como um catalisador dessa mudança. O que antes poderia ser escondido agora pode ser incorporado ao visual de maneira intencional, mostrando que um cabelo não precisa estar perfeitamente controlado para ser considerado bonito. “A Prada levou essa estética ao extremo para comunicar uma ideia. Fora da passarela, o caminho mais interessante é aceitar o movimento natural do cabelo sem abandonar o cuidado. Um cabelo saudável pode ter frizz, volume e fios novos. O importante é distinguir essas características naturais de sinais como ressecamento intenso, quebra e porosidade, que indicam necessidade de tratamento”.

Mais do que uma tendência passageira de passarela, a valorização do frizz acompanha uma mudança na relação com a própria aparência: menos busca pela uniformidade e mais espaço para características individuais. “O frizz não precisa ser tratado como inimigo, mas naturalidade também não deve ser confundida com negligência”, conclui Mari.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *