Desfile no Louvre aposta em carros voadores, tecidos ultraleves e uma estética futurista; para Tamara Lorenzoni, grandes maisons não vendem apenas produtos, mas interpretam o mundo antes que novas formas de consumo se consolidem

O futuro chegou à passarela da Louis Vuitton. No encerramento da Semana de Moda de Paris, Nicolas Ghesquière transformou o pátio do Louvre em uma espécie de cenário de ficção científica, com 34 carros voadores suspensos sobre a apresentação da coleção Spring/Summer 2027. Mas, por trás da estética futurista, o desfile trouxe uma discussão bastante concreta: como a moda, e o mercado de luxo, se adapta às transformações do mundo.
A coleção apareceu com vestidos fluidos, tecidos leves, transparências e peças pensadas para acompanhar um cenário de temperaturas cada vez mais altas. Ghesquière afirmou que as ondas de calor registradas na Europa influenciaram diretamente sua maneira de pensar tecidos e roupas, defendendo a necessidade de criar um guarda-roupa relevante tanto para o presente quanto para o futuro.
Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas com atuação internacional, fundadora da Lorenzoni & Co. e especialista em mercado de luxo, o movimento mostra uma característica central das grandes maisons: a capacidade de transformar mudanças sociais, culturais e comportamentais em códigos de marca.
“Uma grande marca de luxo não precisa esperar que o comportamento se consolide para reagir a ele. Ela observa os sinais, interpreta o seu tempo e transforma essas mudanças em linguagem. É isso que vemos quando uma maison como a Louis Vuitton coloca o futuro dentro de uma narrativa estética”, afirma Tamara.
Mais do que criar uma coleção visualmente futurista, a Louis Vuitton parece construir uma narrativa sobre o modo como as pessoas irão viver. O cenário com carros voadores, instalado em um dos espaços históricos mais emblemáticos de Paris, cria justamente esse contraste entre herança e futuro — uma das tensões mais importantes para o luxo contemporâneo.
“Existe uma diferença importante entre seguir uma tendência e interpretar um movimento cultural. O luxo trabalha com permanência, mas isso não significa permanecer imóvel. Uma marca com legado precisa conseguir atualizar seus códigos sem romper aquilo que faz com que ela seja reconhecida”, explica a especialista.
Outro ponto que chama atenção é a aparente redução da dependência de logotipos e símbolos ostensivos. A coleção apresentou uso mais contido do tradicional monograma da Louis Vuitton, movimento que acontece justamente em um mercado no qual consumidores estão cada vez mais atentos ao significado por trás dos produtos.
Para Tamara, esse comportamento reforça uma transformação na própria definição de luxo. “Quando a visibilidade deixa de ser suficiente para gerar desejo, a marca precisa oferecer repertório. O consumidor passa a procurar aquilo que existe por trás do produto: a narrativa, a origem, a construção, o conhecimento e a sensação de estar diante de algo que não é facilmente substituível.”
A estratégia também dialoga com um momento de maior pressão sobre o mercado global de luxo. Em vez de simplesmente aumentar a ostentação, grandes marcas vêm buscando novas formas de criar relevância e desejo em um consumidor mais seletivo. A temporada de Paris tem mostrado justamente esse movimento em direção a peças mais usáveis, fluidas e conectadas às mudanças do cotidiano.
“Hoje, o luxo precisa ser desejável antes de ser ostensivo. O valor não está apenas no quanto uma peça custa ou no tamanho do logotipo, mas na capacidade que aquela marca tem de construir significado e permanecer culturalmente relevante”, avalia Tamara.
Na leitura da especialista, o desfile da Louis Vuitton mostra ainda como o luxo pode funcionar como uma espécie de laboratório de comportamento. Ao transformar questões como mudanças climáticas, mobilidade, tecnologia e novas formas de vestir em uma experiência de marca, a maison não está apenas apresentando roupas para a próxima temporada, mas testando quais códigos poderão fazer sentido para o consumidor dos próximos anos.
“O luxo sempre esteve relacionado ao desejo de acessar algo que ainda não é comum. Por isso, antecipar o comportamento faz parte da própria lógica desse mercado. A questão é conseguir olhar para o futuro sem perder a herança que sustenta a autoridade da marca”, conclui.
