Em seu 4º desfile no SPFW, Catarina Mina incorpora novastipologias e amplia sua colaboração com grupos artesanais do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte

Batizada de “Bonito pra Chover”, a coleção explora a relação única do sertão com a chuva e a transformação da caatinga quando a água chega

Catarina Mina SPFW N61 | Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

No sertão, quando o céu muda de cor e anuncia a chegada da chuva, nasce um presságio de boas novas. Em vez de lamentar o cinza, lá se comemora a mudança de tempo usando a expressão “Tá bonito pra chover”. Mais do que um jeito de falar sobre o tempo, é uma maneira de reconhecer os sinais da natureza, de olhar para o céu e enxergar a possibilidade de um recomeço.

A nova coleção da Catarina Mina nasce desse olhar para o céu e da relação íntima entre o sertão e a chuva. Elemento precioso, a água transforma a paisagem, desperta a vegetação adormecida, enche rios e açudes e redesenha os caminhos sobre a terra.

Seu movimento é contínuo e orgânico: escorre, contorna, infiltra, atravessa e conecta.

Assim como a chuva que chega ao sertão, a coleção celebra o crescimento e abertura para novos caminhos. Consolidando o movimento de ir além das fronteiras do Ceará em busca de grupos artesanais que trabalham com tipologias que dialogam com o território, muitas delas ameaçadas de extinção, a Catarina Mina chega ao Piauí e amplia sua atuação no Rio Grande do Norte.

Ao todo são 9 tipologias, que vão do crochê e da renda de bilro que fazem parte do DNA da marca, até o richelieu de agave e a renda tramoia – essa última, técnica nascida na Rússia e que passou pela Espanha e Portugal antes de chegar ao Brasil. Hoje vive um processo de revitalização liderado pela Prefeitura de Acaraú, ao lado de pesquisadores e ONGs da região. A colaboração com a Catarina Mina tem como objetivo torná-la mais conhecida e valorizada.

NOVIDADES

O tear com a rede de travessa da cidade de Itarema, artesania presente na construção das redes no Ceará, é uma das novas tipologias incorporadas ao repertório da Catarina Mina. Na coleção, ela deixa de ser apenas utilizada em redes para ganhar o corpo da roupa, transformando-se em tramas, cores e geometrias que atravessam a passarela.

Já a renda tramoia, feita pelas artesãs do coletivo Mães do Mar, em Acaraú (CE), se difere da renda de bilro tradicional porque é a própria fita que conduz o desenho: ele segue um percurso pré-definido, criando pontos de encontro, cruzamentos e vazios que, pouco a pouco, formam a renda.

Do Piauí, a fibra de agave de Parnaíba estreia nas passarelas da Catarina Mina em tramas de flores de palha, ornamentando vestidos de festa e aproximando a delicadeza da celebração à força da matéria natural e rústica.

INOVAÇÃO E UPCYCLING

Além das novidades, a coleção “Bonito para Chover” inova mesmo no uso das tipologias que já fazem parte da história da Catarina Mina. A renda de bilro do Trairi (CE), presente nas coleções da marca desde sua estreia no SPFW, desta vez ganha recortes geométricos que remetem aos veios que a chuva desenha sobre a terra, ramificando-se como afluentes antes de encontrar o rio.

Já o crochê, vindo de Itaitinga (CE), Caicó e Acari (RN), mistura tons de azul e off-white, bronze e vermelho, aparecendo tanto nas roupas quanto nas bolsas.

O cair da chuva sobre o chão, o ritmo das gotas e o som dos primeiros pingos também inspiram o bordado manual da família Temporal, desenvolvido por artesãs de Maranguape (CE) em duas variantes de cor: azul-marinho e cinza. O brilho dos canutilhos é uma referência à refração da água ao encontrar a luz, criando pontos de luminosidade que remetem ao instante em que a chuva toca a terra.

O reaproveitamento de resíduos da indústria Riachuelo que está presente nos 3 primeiros looks que abrem o desfile também tem destaque nesta coleção, em sintonia com os princípios de moda regenerativa que sempre fizeram parte da missão da Catarina Mina. A partir de resíduos têxteis doados pelo parque fabril da Guararapes, fábrica no RN onde a Riachuelo produz cerca de 45% de suas peças, a família Trovejo traz um drop dedicado ao upcycling, com peças que evocam os fios de água que atravessam o corpo em dias de temporal.

Nos tecidos da coleção, destaque para o jacquard de algodão com padronagem que simula o gotejar da água: pequenas marcas que parecem cair sobre a superfície, como se o tecido guardasse o instante exato em que o céu toca a terra.

A sutileza e a leveza dos movimentos da chuva também estão presentes na organza de seda, uma das principais bases da coleção.

Parceira de longa data dos desfiles da Catarina Mina, a marca cearense de acessórios The Morais criou os brincos com franjas de canutilhos que evocam a água em queda, com contornos orgânicos que remetem às nuvens carregadas que antecedem a chuva. E também os brincos de crochê e renda tramoia arrematados por metal dourado.

Nova parceria, a marca paulista Ada Love assina os brincos de vidro que simulam gotas de água, em tons transparente e azul-marinho.

Nos calçados, a Catarina Mina repete a dobradinha com a VEJA. Os modelos escolhidos para esta edição foram o Cateyes, com silhueta alongada, combinando traços de sapatilha e tênis; o Etna Bold, sandália com cabedal acolchado e estilo urbano; o GT, com sola fina, inspirado em calçados automobilísticos; e o Harpie Trail, primeiro tênis de corrida de trail da marca.

CONFIRA ABAIXO TODAS AS MANUALIDADES PRESENTES NA COLEÇÃO

Tramoia | Acaraú (CE) | Família Tramoia

Renda de bilro desenvolvida no território de Acaraú. A técnica apresenta uma construção mais flexível que a renda de bilro tradicional, com maior possibilidade de adaptação à modelagem e ao desenho das peças. De acordo com o pesquisador Thales Walker, a renda tramoia tem origem na cidade de Vologda, na Rússia, de onde é levada para Hinojosa, na Espanha, e de lá se expande pela Península Ibérica. É um saber ameaçado de extinção, que permanecia preservado por um grupo reduzido de artesãs no território e vem se fortalecendo graças aos esforços da Prefeitura de Acaraú, de pesquisadores e ONGs locais.

Rede de Travessa | Itarema (CE) | Família Travessa

Técnica de tecelagem característica de Itarema, que aproxima saberes indígenas das tramas tradicionalmente utilizadas nas redes de pesca. Sua construção parte do entrelaçamento manual dos fios e permite explorar diferentes desenhos e estruturas. Apesar de sua origem estar ligada às redes, a técnica abre possibilidades de aplicação também no vestuário, acessórios e mobiliário.

Crochê | Caicó e Acari (RN) | Instituto Riachuelo | Família Trovejo

Peças em crochê desenvolvidas em parceria com o Instituto Riachuelo nos municípios de Caicó e Acari, no Seridó, região sertaneja no Rio Grande do Norte.

Bordado manual | Maranguape (CE) | Família Temporal

Bordado realizado manualmente com contas e canutilhos. A aplicação foi desenvolvida para criar relevo, brilho e movimento sobre o tecido, simulando o gotejar da chuva ao tocar o chão. O trabalho é construído ponto a ponto, fazendo com que cada aplicação tenha pequenas variações próprias do feito à mão.

Renda de Bilro | Trairi (CE) | Família Ventania

Técnica tradicional feita sobre almofada, a partir do cruzamento e da torção dos fios conduzidos por bilros.

Crochê | Itaitinga (CE) | Família Acalento

Feito manualmente pelas artesãs de Itaitinga, o crochê é construído ponto a ponto e aplicado às peças em diferentes formas, texturas e acabamentos.

Richelieu de agave | Campo Maior, Piauí | Família Reluzente

Trançado artesanal desenvolvido sobre almofada a partir da fibra de agave. A palha é trabalhada e entrelaçada manualmente para formar padronagens geométricas, criando uma superfície marcada pelo desenho da própria fibra. A técnica leva para as peças a textura natural do material e o saber manual do território de Campo Maior.

Bordado Richelieu | Maranguape | Família Maravilha

O desenho é criado à mão e, depois, desenvolvido no tecido por meio do bordado em máquina. O processo combina o traço manual inicial com a precisão do bordado, formando desenhos vazados e ornamentais que se tornam parte da superfície da peça.

Upcycling de resíduos de malha de algodão | Instituto Riachuelo | Caicó e Acari, no Seridó | Família Trovejo

Material desenvolvido a partir do reaproveitamento de resíduos de malha de algodão e parceria com o Instituto Riachuelo. A proposta parte da ressignificação de materiais que seriam descartados, incorporando esses resíduos em uma nova construção têxtil e trazendo o reaproveitamento como parte do desenvolvimento da família Trovejo.

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