Foz transforma saudade e memórias da terra natal em coleção artesanal na SPFW

Foz leva à passarela da 61ª edição do SPFW desfile sobre as saudades permanentes que acometem os que deixam a terra natal, aumentando seu
repertório de manualidades com a chegada da Renda Irlandesa de Divina Pastora (SE) e dos bordados de Timbaúba dos Batistas (RN)

Foz- SPFW N61 | Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Quarta coleção da Foz apresentada no SPFW, “Expresso Maravilha” é a mais subjetiva e psicológica de todas as apresentações que o alagoano Antônio Castro fez até agora, ainda que sua narrativa seja relativamente fácil de explicar.

O nome do desfile é uma brincadeira com a expressão “Sul Maravilha”, muito popular para qualificar o Sul/Sudeste como lugar das oportunidades, prosperidade e progresso. “O Sul Maravilha era onde o povo do Norte e do Nordeste se direcionava para vencer na vida e ganhar dinheiro”, lembra Antônio.

Assim como um road movie — a principal inspiração de Antônio foi o filme “Bye Bye Brazil” (1980), de Cacá Diegues —, “Expresso Maravilha” acontece no caminho, sendo a passarela uma metáfora para essa rodovia que nos leva em direção ao fruto da nossa saudade.

“No início, queria que a coleção partisse de um lugar contente, porque temos no inconsciente essa ideia de que voltar para casa é feliz, alegre e fruto de conforto. Só que entendi que voltar para casa é um pouco mais doloroso”, pondera. Assim, “Expresso Maravilha” fala sobre essa sensação de angústia, da saudade de alguma coisa que não existe mais (ou que nunca chegou a existir), da falta do que na verdade não passa de idealização.

Essa sensação de não-pertencimento é muito difícil de traduzir em roupas, mas Antônio tem as manualidades a seu favor para chegar lá. A coleção flerta com o imaginário da casa brasileira, trazendo códigos populares como cortinas com babados, namoradeiras, almofadas bordadas, galinheiros dos quintais, capas de sofá, mosquiteiros e colchas de cama em cetim matelassado, decorados com sianinhas e outros aviamentos. “Esses elementos criam a ideia de que, sendo o corpo um lugar em trânsito, as roupas são a casa que levamos conosco onde quer que estejamos, e são elas que trarão finalmente a busca da sensação de pertencimento.”

Em parceria com 7 comunidades artesanais de Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte, “Expresso Maravilha” demonstra a versatilidade do artesanato brasileiro em tipologias que vão do bordado à cestaria em fibra de ouricuri, acrescentando ao repertório da Foz o uso de técnicas como a Renda Irlandesa, de Divina Pastora (SE); e os bordados diversos de Timbaúba dos Batistas (RN), numa parceria inédita com o Instituto Riachuelo.

Os bordados alagoanos que já são identidade da marca aparecem mais uma vez em duas versões: figurativos, desenhando homens e mulheres nas janelas, representando o romance que acontece nas “namoradeiras” nas casas do interior; e geométricos, seguindo a parceria com a comunidade de Entremontes (AL), que utiliza o bordado Redendê, trabalho tradicional da região, representado na coleção através dos famosos “caracóis”, desenho comum da produção local e adaptados para “almofadas” acopladas aos looks da passarela.

A novidade fica por conta dos bordados desenvolvidos em Timbaúba dos Batistas junto à Casa das Bordadeiras, grupo produtivo situado no Seridó, no interior do Rio Grande do Norte, e apoiado pelo Instituto Riachuelo há 4 anos por meio da capacitação das artesãs. Antonio e 18 bordadeiras de Timbaúba dos Batistas trabalharam sobre uma série de 3 jacquards exclusivos da Innovativ, parceira de longa data da Foz, que resultaram em 6 peças que serão apresentadas na passarela. As bases em algodão e viscose dos jacquards fazem uma releitura dos tradicionais padrões de chita, repaginados em fios nobres, de gramatura leve e toque macio.

A ideia foi adaptar a estética da chita, em geral feita em um tecido de algodão pouco durável, a um material premium. Os jacquards sofrem a interferência das bordadeiras potiguares que complementam a composição original criando tridimensionalidade através dos bordados locais.

Em uma primeira parceria com ASDEREN (Associação de Rendeiras de Divina Pastora), foram criadas uma série de aplicações em tamanhos diversos que mesclam os pontos e nuances da Renda Irlandesa, trabalho tradicional do município sergipano, reconhecido nacionalmente.

As imagens das carrancas navegadas no rio São Francisco entre os séculos 19 e 20 foram inspiração para os pontos do filé, bordado tradicional da região lagunar em torno de Maceió. As integrantes do Inbordal, que possuem o selo de Indicação Geográfica para o filé, transpuseram para o bordado a geometria antropomorfa das figuras de proa que espantam os maus espíritos no Velho Chico.

Já para a parceria com a também alagoana ArtCetera Ateliê, conhecida pelo trabalho com reaproveitamento de tecidos, Antônio garimpou sobras de brocados e jacquards propositadamente camps para criar uma composição de recortes assimétricos que mesclam brilhos e texturas. O resultado são vestidos, jaquetas e até a primeira sunga da Foz, peças bem-humoradas que fazem referência aos vestidos das festas de casamento no interior.

Na primeira colaboração com a paraense Adue, foi criada uma coleção de bolsas que mescla couro e palha. A partir das fibras de buriti e carnaúba, as peças são arrematadas com couro legítimo em 3 modelos com tamanhos e usos diversos.

Os calçados têm assinatura de Jailson Marcos, designer pernambucano reconhecido por integrar autoralidade a códigos tradicionais da arte em couro do Nordeste.

Também pernambucana, a joalheira Duda Bradley assina os colares e brincos de jaspe em tons de vermelho, preto e roxo, todos em versão máxi, criados especialmente para o desfile — uma linha comercial será lançada concomitantemente ao desfile e será vendida na loja da Foz em São Paulo e no www.dudabradley.com.br.

A joalheira também criou para o desfile braceletes, colares e brincos de prata em forma de carrancas, cortados a laser, que também ganharão versão comercial.

As estampas da coleção são assinadas por Cleyton Almeida (in memorian). O desenho floral é um resgate da primeira criação da Foz em parceria com o designer pernambucano, produzida originalmente em 2013 e reeditada em 2026 para “Expresso Maravilha”. Partindo da série “Flowers”, de Andy Warhol, Cleyton tomou emprestado o imaginário da cultura pop norte-americana para ilustrar uma coleção que fala justamente sobre um contrafluxo migratório, antídoto do êxodo que levou tantos nordestinos ao Sudeste pop do século 20 — e tantos sudestinos à Miami pop no século 21

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *