Marc Jacobs, Martin Margiela, Vivienne Westwood, Alexander McQueen e John Galliano são as figuras de Fashion Tribute, coleção que a Martins desfila nesta São Paulo Fashion Week

Criar roupas, ou seja, criar moda, é um sistema de composição de elementos visuais materializados que, conforme as múltiplas combinações entre eles e como elas ganham forma, cria significados e transmite mensagens. A maneira que o designer conduz esse sistema para traduzi-lo em sua narrativa própria, feita de peças e imagem, é o que define sua assinatura criativa. As possibilidades infinitas de colagem de referências da roda da moda são o pilar essencial do trabalho de Tom Martins, na marca que leva seu sobrenome, e nesta edição N61 da São Paulo Fashion Week (SPFW) desfila um tributo àqueles que formaram seu processo criativo na coleção Fashion Tribute.
Marc Jacobs, Martin Margiela, Vivienne Westwood, Alexander McQueen e John Galliano formam o eixo central dessa homenagem. Em vez de reproduzir literalmente seus códigos, Tom parte de coleções que atravessaram sua formação para desmontá-las e reorganizá-las dentro do vocabulário da Martins. Como o próprio estilista define em diferentes momentos, esta é uma coleção construída como um grande patchwork: referências emblemáticas da história da moda são recortadas, sobrepostas e recombinadas à linguagem da marca, marcada por um olhar pop, oversized e maximalista.
O primeiro look sintetiza esse processo. Um vestido construído em denim e jacquard é ajustado por barbatanas que reproduzem as formas de um manequim de moulage, aproximando o corpo da própria ferramenta utilizada para construir a roupa: gesto que dialoga diretamente com o universo de Martin Margiela. Essa linguagem parte, sobretudo, de duas coleções da linha Artisanal, Primavera/Verão 2014 e Outono/Inverno 2014, apresentadas em um momento posterior à saída de Margiela da maison e no período em que Matthieu Blazy integrava sua equipe de criação. São coleções que atravessaram a formação visual de Tom pelo uso de bordados, jacquards, colagens e materiais não convencionais, elementos que agora reaparecem filtrados pela identidade da Martins.



As silhuetas oversized, características da marca, também encontram o hi-lo que atravessa seu repertório. Códigos urbanos, elementos esportivos, transparências e materiais sofisticados coexistem em um mesmo look. Um dos pontos de partida é a coleção de Primavera/Verão 2002 da Dior, assinada por John Galliano, referência que aparece nas sobreposições, nas calças usadas sob saias, nas transparências aplicadas a peças de linguagem esportiva e, sobretudo, em uma cartela extensa, construída a partir de combinações inesperadas de cores. É dessa mistura entre rua, excesso e sofisticação que Tom extrai uma das bases para Fashion Tribute.
A histórica coleção de Primavera/Verão 1993 da Perry Ellis, assinada por Marc Jacobs, por sua vez, sempre esteve presente no imaginário da Martins, mas ganha maior evidência nesta temporada. O grunge aparece nos xadrezes, florais, listras e nas muitas sobreposições que atravessam os looks. A referência também é reelaborada por meio de novas estampas: uma composição de frutas desenvolvida pelo designer Guilherme Queiroz e uma estampa de girassóis — flor favorita de Tom — assinada por Henri Campeã introduzem uma leitura pessoal e bem-humorada desse repertório.
Outra coleção fundamental para a formação de Tom é a linha masculina de Vivienne Westwood para o Outono/Inverno 2016, que, à época de seu lançamento, transformou sua percepção sobre as possibilidades da moda masculina. O exagero das proporções, a presença de peças tradicionalmente associadas ao guarda-roupa feminino dentro de uma coleção masculina, os jacquards, tecidos metalizados e transparências ajudaram a expandir esse imaginário. Em Fashion Tribute, a referência aparece menos como citação direta e mais como uma atitude: a liberdade de tensionar códigos tradicionais do vestuário, deslocando gênero, materiais e proporções de seus lugares esperados.

Já Alexander McQueen Outono/Inverno 2009 surge como uma referência de impacto visual. Marcada por uma beleza extrema, proporções exageradas, materiais inesperados e por uma crítica à própria indústria da moda, a coleção deixou uma impressão duradoura no repertório de Tom. Em Fashion Tribute, essa influência aparece em padrões clássicos reelaborados — pied-de-coq e pied-de-poule em vermelho e preto e em preto e branco, também desenvolvidos por Guilherme Queiroz —, além do uso de paetês, superfícies metalizadas e materiais que contribuem para a densidade visual da coleção.
A partir dessas referências, Fashion Tribute se torna uma das coleções mais ricas em materiais e detalhes já apresentadas pela Martins. O denim fornecido pela Serg Denim recebe diferentes lavanderias, acabamentos e intervenções. Sedas, rendas, tules bordados, náilon e jacquards são frequentemente sobrepostos em uma mesma peça — como o jacquard que surge sob a transparência da renda — e encontram plumas, paetês, bordados de pedrarias, broches, piercings, colares, peças de acervo e matérias-primas de diferentes pesos, origens e texturas. Tecidos encontrados em bancos de tecidos e selecionados individualmente por Tom também atravessam a coleção, permitindo que materiais que originalmente não dividiriam o mesmo contexto passem a coexistir em uma única peça.
Os acessórios, especialidade recorrente no trabalho de Tom, ampliam ainda mais esse universo. Nesta temporada, aparecem em uma variedade de colares construídos com miçangas, conchas, muranos, cristais, pingentes e cerâmicas, muitos deles desenvolvidos com materiais da Colore Pedrarias. Outros assumem uma linguagem mais bruta e metálica, alongados e com mosquetões, enquanto escapulários são criados em homenagem aos cinco estilistas que estruturam a coleção, rabos de raposa fake estão nos charms, outro acessório que Tom sempre insere nas coleções. Cintos de patchwork, produzidos a partir de refugos de couros de diferentes cores e texturas, arrematam alguns dos looks. Nas bolsas, a parceria com Denise Gerassi, especialista no trabalho com couro de pirarucu, leva essa lógica para uma combinação igualmente inesperada de materiais e superfícies.



Toda essa construção transforma Fashion Tribute em um patchwork que ultrapassa a técnica e passa a funcionar como método criativo. A colagem continua no styling de Cacau Francisco e Anuro Anuro, no qual acessórios, peças, comprimentos, volumes e proporções são colocados uns sobre os outros. Cada look se forma, assim, pelo acúmulo de diferentes camadas de informação — da mesma maneira que as próprias referências da coleção são acumuladas, desmontadas e reorganizadas.
O upcycling reforça essa lógica. Peças garimpadas por Tom em brechós são desmontadas, recortadas e reconstruídas em novas silhuetas. Em vez de esconder suas origens, o processo preserva vestígios das roupas anteriores e os incorpora às novas construções, fazendo com que a memória dos materiais também participe da narrativa da coleção.

Embora cinco estilistas formem o eixo principal de Fashion Tribute, o repertório de Tom não se encerra neles. Rei Kawakubo, Junya Watanabe e Miuccia Prada aparecem de maneira pontual, como outras referências que contribuíram para a construção de seu olhar sobre moda e que emergem em diferentes momentos da coleção.
O tributo ganha sua tradução mais direta em uma linha de T-shirts elaborada por Tom Martins e Paula Stacciarini da Stacci. As estampas localizadas transformam símbolos associados ao universo dos estilistas homenageados em imagens gráficas e bem-humoradas foram assinadas por Davi Chadad. As T-shirts estarão à venda após o desfile.
A beleza do desfile, assinada por Laura La Laina, recupera outro elemento que sempre fascinou Tom no universo de Margiela: as máscaras. Ora transparentes, ora opacas, elas cobrem e revelam os rostos em diferentes momentos, levando para a beleza mais uma das referências que atravessam a formação do estilista e ampliando o tributo para além das roupas.
Martins e Denise Gerassi: opostos complementares


Para as bolsas da coleção, Tom se uniu à marca de bolsas e itens de couro de luxo Denise Gerassi, especializada na criação de acessórios clássicos e sofisticados a partir do couro de pirarucu. O DNA criativo pop da Martins encontrou liberdade criativa para seu patchwork de texturas, cores e estampas: a equipe de Denise desenvolveu um modelo inédito para parceria, em que, sobre a textura do pirarucu, foram feitas aplicações de franjas, couro de pele de ovelha em cores vibrantes e estampa animal print e até recortes vindos do couro de peixe, articulados para estruturar a forma da peça em si. O novo modelo colaborativo tem sete variações de mix de materiais.
A troca criativa de Tom e Denise Gerassi é rica, sendo ambos designers de gerações e estéticas diferentes que buscaram se complementar. “Foi muito desafiador desenvolver este projeto com o Tom mas, apesar de nossas marcas terem públicos e direcionamentos distintos, conseguimos chegar em uma bolsa incrível que dialoga com ambos os universos além de incorporar o tema da coleção da Martins”, diz Denise.
